sábado, 5 de junho de 2010

Buenos Aires com Luíza


Cristina Drummond




Passei uns dias com minha filha e suas amigas em Buenos Aires, onde ela está fazendo um intercâmbio de faculdades. Buenos Aires com Luíza é o nome do meu arquivo de fotos onde estão guardados registros desses momentos de encontro em que estivemos juntas.
Felizmente dessa vez não fiquei no mesmo apartamento em que elas estavam, porque depois dos cinqüenta não consigo muito bem acampar, nem suportar estar no meio da bagunça onde não se acha nada e não existe nada que cheire a propriedade particular.
Tudo é de todos, e o limite é de ninguém. Hora de dormir e preocupações com as olheiras do day-after não têm lugar de existir.
Mesmo assim, quando se é jovem, nos damos o direito de experimentar e errar. Isso é maravilhoso, e essa dificuldade com os limites tem também seu lado de liberdade que tem um enorme gosto de vida. Essas jovens são lindas e buscam, cada uma à sua maneira, seu caminho na vida.
Incômodo com o corpo próprio e com as relações amorosas não me parecem ser exclusividade da nossa idade. As mais jovens também sofrem com isso. Talvez sofram mais com o trabalho, porque ainda estão buscando o lugar que ele vai ter em suas vidas. Nós, mais velhas, já pudemos avançar um pouco nesse sentido.
A verdade é que pensamos que com o passar dos anos teríamos encontrado melhores ajustes com o feminino, ou que nosso know-how decorrente de anos de experiência e de muitas trocas nos ajudasse a evitar as devastações próprias de nossa sexualidade.
Não posso dizer que a experiência não conte. Também não posso dizer que ela nos proteja dos maus encontros. Quando nos dispomos a arriscar. Cada vez mais queremos acertar, e se possível, dispensando o risco.
Aos cinqüenta, a melhor de nossas capacidades continua sendo a de inventar. Uma vez mais. Inventar uma maneira de nos mantermos vivas e desejantes, mais do que desejadas. Porque isso, ser desejada, me parece ser uma conseqüência do laço que podemos inventar. De sobreviver às decepções e às dificuldades das contas cotidianas. De achar graça e descobrir o que mexe com nossas emoções. De estar com a filha e as amigas se deixando aprender e divertindo muito com sua companhia. Fazendo compras, tomando um vinho, brincando na mesa do Friday’s em Porto Madero.
Por isso estou de acordo com Beatriz, o humor é fundamental. Esquecer os óculos e a visão dos defeitos também. Porque temos que poder ver a beleza de outras maneiras, e continuar perdendo o fôlego diante do que ainda nos permitimos nos deixar extasiar. Nem que seja num breve momento. Um café. Ainda assim vale à pena.

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