quinta-feira, 10 de junho de 2010

Os 50 de um homem

Cláudio Boechat
A balança indomável a cada manhã talvez seja o sinal mais emblemático dos meus 50. O espelho confirma que o peso extra se concentra na linha da cintura - a maldita barriga -, mas se espalha por todo o território. Médicos, revistas, rádios e TVs gritam o tempo todo que o mal (roncos, refluxos, azias, noites mal dormidas) está nesses quilos indesejados. Aliás, acordo cada vez mais cedo e minha vigília é cada vez menos esperta. Quero emagrecer, mas não consigo. Preciso aprender a comer e beber menos, inclusive porque o álcool agora me faz realmente mal. A antiga alegria etílica é agora menos eufórica e mais cautelosa. Uma grande bebedeira aos 50 seja tão ridícula quanto aos 40, mas é muito mais insensata. Da mesma forma que jogar uma partida de futebol com os amigos na época do Natal. A sensatez, aliás, é algo a se desprezar aos 50, apesar de fazer cada vez mais bem, e dever ser cada vez mais usada. É que as boas coisas ainda estão escondidas no inesperado, no não planejado, no impulso.
Cuidar da saúde é um aprendizado a começar praticamente do zero. Nunca estive realmente doente, nunca me internei – só dormi em hospitais como acompanhante, além de uma noite para examinar a qualidade de meu sono. A enfermeira ligou alguns eletrodos em meu peito, nas pernas e nos braços. Fui para a cama cedinho, e dormi feito um anjo. Foi ótimo. Não ronquei e o exame foi infrutífero, mas me senti como um adolescente de manhã. Um pouco depois dos 50, fiz meu primeiro exame invasivo: um tubo na garganta. Me deram um remedinho qualquer e dormi como um bebê por uns 15 minutos. Foi ótimo. Me senti como um adolescente ao acordar. Outro dia, fiz meu primeiro exame invasivo pelo outro lado. Graças a Deus, me doparam de novo – desta vez, foi uma anestesista de verdade, minha primeira anestesista e não vou esquecer nunca. Acordei depois de 20 minutos me sentindo como um adolescente. Todas essas invasões revelaram meu envelhecimento por dentro – hérnia de hiato e divertículos – e me avisaram de que se quiser me sentir como um adolescente mais vezes precisarei cuidar de algumas coisas.
Há, no entanto, um peso que a balança não mede: a bagagem de vida. A gente vai recolhendo experiências, aprendizados, sentimentos, e acumulando em uma mochila imaginária nas costas. Esvaziar essa mochila pode ser muito penoso, e aos 50 devemos aprender a não carregar mais peso. Precisamos de leveza, porque a carcaça já não agüenta mais como antigamente. Melhor não recolher mais, e livrar-nos do peso improdutivo e sem significado.
Com certeza, uma coisa não queremos descarregar. Os filhos, aos 50, estão grandes, muuuito grandes. Provas vivas de nosso envelhecimento, como dizia um amigo que já se foi (mais um, aliás, muita gente já se foi. Estamos na comissão de frente, carregando as bandeiras que selecionamos ao longo da caminhada. Continuamos buscando o sentido de tudo isto. Conhecer, saber, vasculhar, investigar são as armas mais fortes do cinqüentão, mas experimentar, errar, exercitar, arriscar não foram abandonadas. Os 50 nos introduzem na velhice, apesar de não serem a velhice, ainda. E precisamos aprender como chegar lá.

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